Em meio à Copa do Mundo de 2026 e à intensa temporada da Fórmula 1, uma história curiosa reforça porque Ayrton Senna é um dos maiores símbolos da paixão esportiva brasileira. Há exatos 40 anos, após a Seleção Brasileira ser eliminada nos pênaltis para a França nas quartas de final do Mundial do México, o piloto protagonizou um gesto que marcaria para sempre sua trajetória e sua conexão com o país: erguer pela primeira vez a bandeira do Brasil dentro de um carro de Fórmula 1.

No dia 22 de junho de 1986, enquanto Ayrton Senna garantia a pole position com a Lotus nos Estados Unidos, o Brasil parava para acompanhar as quartas de final da Copa do Mundo do México. Como fã de futebol, assim que terminou seu treino classificatório, o piloto foi assistir ao jogo contra a França, abrindo mão até mesmo da coletiva de imprensa oficial. Apesar de contar com uma geração brilhante de craques como Zico, Sócrates e Careca, a Seleção Brasileira acabou eliminada nos pênaltis após um empate em 1 a 1. Como a Lotus, equipe de Senna, utilizava motores Renault, os boxes estavam tomados por engenheiros e mecânicos franceses, que não pouparam piadas e provocações pela derrota do Brasil.
A resposta de Senna veio no dia seguinte. Após vencer a corrida, o piloto ergueu uma bandeira do Brasil durante a volta da vitória, em um gesto que rapidamente se transformaria em uma imagem marcante de sua trajetória e em uma tradição repetida ao longo de sua carreira.
O “pacto” entre Ayrton e a Seleção que inspirou o tetra
A ligação de Ayrton Senna com o futebol não parou em Detroit. Em 1993, a Seleção passou por uma crise técnica sem precedentes e precisou do retorno de Romário em um jogo contra o Uruguai para se classificar. O sentimento entre os brasileiros era de que o time precisava de uma inspiração para dar fim ao jejum de 24 anos sem títulos mundiais.
No dia 20 de abril daquele ano, Senna foi convidado para dar o pontapé inicial em um amistoso do Brasil contra o combinado Paris Saint Germain/Bordeaux, em Paris. Na ocasião, o piloto e os jogadores fizeram um “pacto” de conquistarem o tetracampeonato naquele ano, no campo e nas pistas.
“Acelera daqui, que eu acelero de lá!” disse Senna aos jogadores antes da partida.
Onze dias depois, o acidente fatal em Ímola interrompeu o pacto da busca pelo tetra nas pistas. Abalados pela morte do piloto, os jogadores da Seleção passaram a homenagear Senna durante a campanha do Mundial de 1994 realizado nos Estados Unidos – mesmo país onde Senna ergueu a bandeira após vencer uma corrida.
Em depoimentos concedidos anos depois, integrantes daquele elenco relataram o impacto da perda do tricampeão para o grupo. “Todo mundo adorava o Ayrton”, relembrou o ex-atacante Bebeto. “Ficamos devastados. Dissemos entre nós: ‘Simplesmente temos que vencer esta Copa do Mundo e dedicá-la ao Ayrton'”.
Por isso, a conquista da Seleção brasileira veio marcada por uma homenagem que entrou para a história. Após as cobranças de pênalti, ainda em campo, os jogadores abriram uma faixa de aproximadamente 2,5 metros, feita em folhas de impressora matricial com a seguinte frase: SENNA…ACELERAMOS JUNTOS, O TETRA É NOSSO!

A faixa, assinada por todos os jogadores e comissão técnica da seleção, ficou guardada durante 30 anos por Américo Faria, superintendente da CBF em 1994, até chegar de forma definitiva às mãos da família do piloto. Em 2024, uma comitiva de ex-jogadores visitou a sede da Senna Brands e do Instituto Ayrton Senna para doar a faixa original.
Quatro décadas depois daquele primeiro gesto com a bandeira brasileira, o legado de Ayrton Senna continua presente no imaginário nacional. Pesquisas recentes da marca Senna mostram que o piloto é inspiração para seis em cada dez brasileiros, superando grandes nomes do esporte ainda em atividade.
Mais do que um tricampeão mundial, Senna ajudou a construir uma forma de torcer baseada na crença de que a busca pela vitória começa antes do resultado. Começa em quem acredita. Foi esse espírito que transformou suas conquistas em símbolos que seguem inspirando brasileiros dentro e fora das pistas, dos campos e das arquibancadas.


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