Nestes quase 60 anos de profissão (comecei em 1969), sendo 55 deles ligado ao setor automobilístico, tive a oportunidade de fazer contato com muitos dos melhores pilotos brasileiros que brilharam nas pistas por aí. Meu primeiro ídolo maior, Bird Clemente (que já nos deixou), que me fazia sair de Santos e, de ônibus, chegar a Interlagos depois de cinco horas de viagem, eu tive o prazer e a emoção de conhecê-lo pessoalmente em um almoço na sua casa, ao lado do Seccão (Luiz Carlos Secco, que também já nos deixou) e Luiz Fernando Silva Pinto, onde pude falar para ele das minhas “aventuras”, no início dos anos 60, pela Via Anchieta, Rua Tabatingüera e avenida Vereador José Diniz (a 23 de Maio surgiu só em 1969).
E quando ele me perguntou a razão de ser meu ídolo, minha resposta o deixou surpreso. E ele riu muito.
– Por que você usava óculos, assim como eu.
Depois falei da sua habilidade em entrar de lado nas curvas, o que deixava seu amigo/adversário, Luiz Pereira Bueno, “enfurecido” que sempre reclamava que o meu ídolo entrava “torto” nas curvas o que impedia ultrapassagens.
Dias depois do almoço na casa do Bird, recebo dele um “bico de pena” com a minha figura (está no anexo), o que me deixou orgulhoso, pois muitos dos seus “modelos” foram figuras importantes no mundo da velocidade, como Piquet, Ayrton, Emerson e muitos outros.

Depois das minhas viagens a São Paulo, para ver o Bird, meu contato com os pilotos, voltou anos depois quando, trabalhando no O Globo (sucursal de São Paulo) fiz parte da equipe que cobriu o GP de F1 em Interlagos (o último antes de ir para Jacarepaguá, no Rio de Janeiro), no dia 27 de janeiro de 1980. Naquela corrida, Nelson Piquet, com falha na suspensão, causada pelo furo de um pneu na sua Brabham B T49, com motor Ford Cosworth V8, abandonou na 14ª volta.
Naquele momento eu estava na área dos boxes, sentado no chão ao lado da box do Piquet quando ele abandonou e veio sentar-se ao meu lado, no mais completo silêncio. Conhecendo sua personalidade, fiquei como ele, quieto e calado. Ele tomou água e ficou ali, “olhando para o nada”, com certeza pensando naquele pneu furado que acabou com a sua corrida no Brasil. Depois de algum tempo, ele levantou, olhou para mim e disse: “obrigado”, talvez se referindo ao meu silêncio, apesar de reconhecer minha condição de jornalista, conforme “denunciava” meu crachá. Fiz menção deste “encontro” em meu texto para o jornal, que não foi usado pela editoria de Esportes.

Anos depois voltei a encontrar Nelson quando trabalhei na assessoria de imprensa de uma fabricante, ainda nos anos 80. Construímos uma boa relação e lembro que, um dia, recebo um folder, de 8 páginas com lindas fotos coloridas e informações sobre o seu iate, Pilar Rossi, um trimarã (com três cascos), que estava à venda por US$ 5 milhões. Junto um recado do próprio punho, ressaltando seu bom humor: “se quiser, reservo para você”. Antes havia me presenteado com uma camisa e uma gravata da Fashionable. Nossa, ia esquecendo de falar: “quero deixar, bem claro, que não comprei o Pilar Rossi, apesar da generosa oferta”.
Voltei a reencontrá-lo na sua casa, em Brasília, quando ele voltou ao Brasil, após o acidente em Indianápolis. Lá conheci sua mãe, Clotilde que me contou adorava sair, em viagens com seus netos em seu motor home, acampando por diversos lugares no Brasil Central.
Meu último encontro com o meu ídolo foi há quatro anos, em Brasília, durante a entrega do prêmio Capacete de Ouro, promovido pela minha querida amiga Isabel Reis. Depois de muitos anos sem nos vermos, tinha a expectativa de que ele talvez não me reconhecesse. Mas ele me surpreendeu.
– Oi Nelson, lembra de mim?
– Claro, chicolelis! Claro que lembro!
E trocamos um abraço. Fiquei emocionado.
Minha relação com o Ayrton Senna, que também já nos deixou, foi meramente profissional. Ainda como repórter de O Globo, fui convidado pela Ford para um evento de apresentação da linha Escort. Ele fez várias voltas rápidas pelo circuito de Jacarepaguá (de saudosa memória), acelerando a versão XR 3. Na época Ayrton era destaque na Fórmula 3 Inglesa. Ele pisava forte com o pé direito que, por várias vezes, achei que sairíamos pelas áreas de escape a cada curva. Mas o campeão nos deixou inteiros ao final das três voltas.
Também participou daquela ação da Ford, Emerson Fittipaldi, que conheci pessoalmente quando fui gerente de Imprensa de uma fabricante e ela homenageou o nosso primeiro campeão da F1, em 1972, pela Lotus, no GP da Itália. Ele foi bicampeão em 1974.
Pelo seu feito, o Monza Classic SE ganhou a denominação 500 EF, que foi apresentado no Salão do Automóvel de 1989. O 500 referia-se à sua vitória nas 500 Milhas da F Indy, em 1989 e as letras EF, claro, às iniciais do campeão.


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